segunda-feira, julho 17, 2006

Breve adeus

Semana passada, completei 23 anos. Não gosto muito de fazer aniversário, por isso tento ocupar o dia ao máximo, para nem lembrar da data. (Claro que comemoro, e considero estranhas as pessoas que não.) Dessa vez, minha mãe veio pra Porto Alegre e fez uma lasanha maravilhosa pra mim. De tarde, passeamos no Centro da cidade, nós duas, olhando vitrines. Eu tentando impedir que minha mãe fizesse amizade com todos os câmelos que vendem aquela quantidade absurda de bugigangas contrabandeadas. Foi inevitável. Ela fez amizade.
Fiz ela caminhar bastante, a ponto de doer o pé e odiar o salto alto. Foi muito bom. De noite, comemos pizza.
Os dias que antecederam o meu aniversário não foram os melhores. Dizem que os 30 dias anteriores são o inferno astral - não que eu acredite nestas idiotices, mas acredito. Dentre os acontecimentos que me marcaram, uma grande perda.

Quando eu ainda morava em Rio Grande, incerta quanto ao curso que tentaria no vestibular, uma professora de Língua Portuguesa e Redação teve influência decisiva na minha escolha. A Sandra sempre dava a nota máxima para os meus textos e dizia, em sala de aula, que eu precisava fazer ou Letras ou Jornalismo. Foi ela quem me ensinou a usar "ora" e insistia que era muito "sofisticado". Nas palavras dela, "sofisticadíssimo". Também foi ela quem me proibiu de usar "em suma", "por fim" ou "finalmente", os quais definia como "empobrecedores".
Uma vez a Sandra me fez ler uma das minhas redações para a turma de 30 e poucas pessoas, como exemplo de uma redação gabarito. Adorei. Nos dávamos muito bem, amor à primeira vista. Ai de quem viesse me falar alguma coisa da aula dela. Minha irmã, que sabia de meu amor, disparava "ela é apaixonada pela Sandra" e a pessoa desistia.
Um dia a Sandra me receitou florais, quando viu o quão estressada eu podia ficar. Disse até, com um ar condescendente, que se assustou com a minha euforia. Tomei os florais, como discordar da Sandra? E também fiz acupuntura. Sempre foi difícil um professor me fazer prestar atenção nas aulas de Gramática, se ela conseguiu, era capaz de muita coisa.
Quando eu decidi fazer Jornalismo, depois de conversar com as pessoas mais próximas, ela foi a primeira pessoa para qual anunciei. Abriu um sorrisão de lado a lado e falou, com extrema convicção, "estás no caminho certo". Se dispôs a corrigir redações no modelo da UFRGS e de UFSM, universidades nas quais me inscrevi, além das redações da FURG, onde fiz Direito.
Passei pra Direito com 49 pontos de 50 na redação. Pra indignação da Sandra, claro, por que me deram 49, e não 50? Depois veio o listão da UFRGS, passei, mas não encontrei mais ela. Uns meses depois, nos encontramos em uma formatura. Ela me olhou, abriu um sorriso e disse "por favor, me diz que estás em Porto Alegre". "Ora, é claro que sim".
Nos últimos meses, a Sandra - que sempre gostou de navegar pela Internet - começou a fazer parte do Orkut. Fiquei emocionada quando ela me adicionou e passou a mandar scraps, se referindo a mim como sua "amiga para sempre". Um amigo com quem estudei chegou a reclamar que ela mandava scraps pra mim e não pra ele, brincando.
O sorriso da Sandrinha era fora de sério. Uma dessas raras pessoas claras e transparentes, o tipo de professora na qual me espelharei no futuro. Mais, o tipo de ser humano no qual me espelharei, certamente.
Fico triste que ela não vá estar aqui quando grandes textos forem impressos com o meu nome em cima, para ela se orgulhar de ter me incentivado. Fico triste, também, por não contar mais com sua visão crítica.
A diferença que ela fez na minha vida foi grande. Imensa. Espero um dia fazer o mesmo nas escolhas de alguém.
Não sei se ela está em um algum lugar, não acredito muito nessas coisas. Só tenho a certeza de que a forma como me tocou, e a muitos outros alunos, a tornou docemente inesquecível.
No fim das contas, isso é o que importa.

quinta-feira, junho 08, 2006

Falta de sorte ou maldição?

Depois da dificuldade de tirar a Carteira de Trabalho às vésperas de apresentá-la na RBS, a história se repete em proporções, graças a Deus, menores.
Estou tirando o meu Passaporte por uma questão preventiva. Vá que seja sorteada pra ir pra Copa às pressas, ou ganhe um curso na Espanha (aliás, preferível à Copa). Em ambos os casos eu preciso estar munida do Passaporte. E também porque a vida não é só visitar o Uruguai, que só pede identidade na entrada.
De qualquer jeito, paguei aquela taxa exorbitante de R$ 89,71. Reais chorados, mas bem aplicados. Depois disso, duas fotos 5 x 7, com fundo branco e com data. Saíram pela bagatela de R$ 7. Duas fotos por R$ 7. Cada uma R$ 3,5 e eu nem fiquei bem nelas. Vá lá, bem aplicado.
Juntei tudo: comprovante de pagamento, fotos, identidade, CPF, Título de Eleitor, comprovante de voto e me dirigi ao prédio da Polícia Federal, que fica na Ipiranga, bem perto da Zero Hora.
Cheguei lá eram 15h15min. Fui até o balcão e uma mulher bem descontente com a vida me atendeu:
- Tem isso, aquilo e aquele outro, tudo original?
- Tenho.
Me deu a ficha. Número 3. Me sentei entre um monte de pessoas e fiquei impressionada pela quantidade de orientais que passavam pra lá e pra cá. Lembrei da Brenda, colega no trabalho, dizendo que eles vão dominar o mundo e ri sozinha. Tirei toda a documentação da minha pasta e esperei cantarem o meu numerozinho.
Uns cinco minutos depois, se levanta uma mulher que olha para todos sentados (especiamente pra mim, imagino) desafiadora. Caminha até uma mesa e em cima dela está um daqueles porta-fichas - onde se crava as fichas durante o dia, e é preciso olhar o último número pra chamar o próximo.
Olha pra ficha. Olha pra gente. Olha pra ficha. Olha pra mim.
- Ses-seeeeeen-ta e nooooo-ve.
Puta que o pariu.
- Ses-seeeeeen-ta e nooooo-ve.
Se levanta um homem e senta em frente à mesa da mulher.
Quinze minutos depois.
- Se-teeeeeen-ta.
Me levanto e vou embora, tenho que estar na Zero Hora às 16h. Enquanto caminho rumo ao trabalho, só posso rir da minha falta de sorte naquele dia fatídico. Peraí. Fatídico mesmo: o dia do demônio. 6/6/06. Dia da besta. Ah, se eu tivesse lembrado antes não tinha nem perdido a viagem.
Ao menos dessa vez eu me controlei e não tive nenhum ataque de choro.

quinta-feira, junho 01, 2006

Nossos heróis na rédea curta

O mais engraçado nesse história da mídia cair de laço em cima dos jogadores da Seleção - os que foram fazer festa em noite folga - é que eles não estavam preocupados em se explicar com torcedores, comissão técnica ou repórteres, todos queriam deixar claro que a namorada sabia (ou não deveria saber) muito bem onde estavam. Demonstrando, assim, os bons namorados que são.
Até mesmo os nossos renomados jogadores são levados na rédea curta. Com homem tem que ser assim mesmo.

sábado, maio 27, 2006

Mais um dia. Mais uma decisão daquelas.

sexta-feira, maio 26, 2006

Presenciando um assédio

Desço as escadas correndo pra não fazer a minha carona esperar. Mas a carona não chegou e tenho que ficar esperando - coisa que eu detesto. Enquanto o carro não chega, fico escutando a conversa que o porteiro da noite (aquele que está sempre dormindo quando eu chego de madrugada) tem com a minha vizinha (uma senhora com cerca de 70 anos muito meiga, mas bastante intrometida, que entrou na minha casa sem pedir licença pelo menos duas vezes).

VELHINHA: A minha neta não quis dormir aqui na minha casa hoje.
PORTEIRO: Ela dorme sempre aqui?
VELHINHA: Dorme quase sempre.
PORTEIRO: Eu nunca vi.
VELHINHA: É que ela chega de tarde e sai bem cedo de manhã. Não é no teu turno. Ela fica comigo pra eu não ficar sozinha (DEIXOU A BOLA QUICANDO).
PORTEIRO: Ah, mas eu entendo ela. No inverno é mesmo ruim a gente dormir fora da cama da gente. Pra dormir fora de casa com esse frio, só se a cama for melhor que a minha.
VELHINHA: É verdade...
PORTEIRO: No Motel Botafogo, por exemplo (DO NADA).
VELHINHA: Ôôôooolha...
PORTEIRO: Lá tem umas camas muito boas.

Graças a Deus, minha carona chegou.
A verdade é que já vi a velhinha conversando com o porteiro umas três vezes depois disso.

quinta-feira, maio 25, 2006

Tiradinhas de Voltaire

- É um torto na vida, respondeu o abade. Ganha a vida falando mal de todas as peças e de todos os livros. Odeia a todos que têm suceso, como os eunucos odeiam os potentes: é uma das serpentes da literatura que se nutrem de baixaria e de veneno. É um foliculário.
- O que você chama de foliculário?
- Um fazedor de folhas, um Fréron, disse o abade.

Profissão bem odiada essa minha...

terça-feira, maio 09, 2006

Sábado de manhã

Olho com cara de sono para o segurança.
- Não sei onde tá meu crachá, pode liberar aqui, pra mim?
Ele me observa, dá uma risadinha de canto de boca, me olha de cima a baixo, e deve ter notado que eu estava com a mesma roupa da noite anterior.
- Eu sei que tu quer que eu diga que tu não pode entrar sem crachá, pra que tu possa voltar pra casa e dormir a manhã inteira, cada hora de sono que deve estar faltando. Mas eu não vou fazer isso. Eu vou abrir. Tu vai entrar e passar o resto da manhã trabalhando.
- E parte da tarde.
- É.
- ... Porque a vida é isso mesmo.
- Exatamente.
- Bom dia pra ti, também.

Discurso

É muito bom escrever.
Nunca me canso de dizer isso.
Espero, também, nunca me cansar de fazer isso.
E realmente espero ser paga para escrever um dia.
Nada é garantido nesta vida. Nada.
São tempos difíceis.

terça-feira, abril 18, 2006

Não podia ser tudo perfeito

Croissant de queijo perfeito.
Cerveja perfeita.
Preços baixos perfeitos.
Coca-cola mais perfeita - menos doce.
Mas tinha que ter aquele banho horroroso?

O feriadão no Forte Santa Tereza, no Uruguay, a menos de uma hora da fronteira com Santa Vitória do Palmar, foi bom de um modo geral. Alguns detalhes como os citados acima foram especialmentes bons. O meu último banho lá é que foi, de certa forma, traumatizante.
Eram cerca de 18h30min quando cheguei ao banheiro mais próximo ao lote do acampamento, em Cerro Chato (uma das zonas daquele imenso parque). O primeiro choque foi a fila. Três mulheres à frente. Mulheres demoram no banho, mas em menos de 10 minutos quatro chuveiros foram desocupados e eu pude ocupar o mais próximo à porta. Devidamente despida, só faltava a água quente. Que água quente mesmo?
Bom, tinha a torneira do quente e a do frio, mas só abri a do quente, o que não adiantou. O fio de água caindo era tão frio quanto o gelado mar uruguaio e, conforme era atingida pelas gotas esparsas, decidi: não ia passar condicionador. Nos chuveiros viznhos, moças mais frescas, acredito eu, alguns gritos de terror.
Decidi, então, que daria prioridade a algumas partes na passagem do sabonete. Um banho matado mesmo. Durante essa dita passagem, não é que o sabonete cai no chão e, quando me abaixei pra pegá-lo, senti a corrente de ar frio que vinha da porta direto pro box sem cortina? Meus ossos ficaram ainda mais enrijecidos e a minha boca tremendo sem controle.
Mulheres peladas passando pra lá e pra cá. Mais alguns gritos de terror. Putaqueopariu. Veio a mulher que cuidava o banheiro toda sorridente - também, ela não estava debaixo daquele banho frio - e gritou:
- Cinco minutos cada.
- A senhora acha que eu quero ficar mais que cinco minutos aqui embaixo?
Tenha dó.
No máximo quatro minutos, vinte correntes de ar congelando meus ossos, indefinidos litros de água fria insuportável depois, peguei a toalha e me enrolei nela como se fosse um edredon. Não, não, aqueles cobertores de lã de ovelha extra-quentes. Amaldioçando até a décima geração de quem me convenceu a ir acampar, coloquei a roupa e fugi dali, com o cabelo despenteado mesmo. Saí correndo pro acampamento.
Me deitei no colchão inflável que foi surpreendentemente bom e fiquei ali, quietinha, tentando me recuperar do frio dentro dos menos de cinco metros quadrados da barraca. No resto da noite, quando criei coragem pra sair da barraca usando dois blusões e um casaco apeluciado, fiquei tapadinha de edredon à beira da imensa fogueira, tomando Pilsen.
A Pilsen também, mas por uma coincidência divina, estupidamente gelada.

terça-feira, abril 11, 2006

Não estou aqui


Estou no Forte Santa Tereza, no Uruguay.
Deixa pra segunda que vem.